Acho incrível que deixem cair o Governo nesta altura.
Governo: Temos que cortar nos salários.
Oposição: Não pode ser! 'Tá mal!
Governo: Mas temos que cortar nos salários.
Oposição: Não pode ser. Isso é impensável.
Governo: Que alternativa apresentam?
Oposição: Não pode ser! 'Tá mal!
Lá dizia o outro e agora é que se aplica: “falam falam, falam falam e não fazem nada...”. Adianta de muito falar e criticar quando são zero as propostas alternativas que apresentam. Sei que esta já é uma discussão que, independentemente de tudo, vai cair em saco roto, tal como caem todas aquelas que são feitas à boca pequena e que, essas sim, talvez fossem capazes de mudar alguma coisa.
A verdade é que este país está mesmo atirado ao abandono. Se nem os votantes se chegam à frente, nem a oposição faz juz a esse carácter, nem deixar o Governo cumprir o mandato até ao fim, como havemos sequer de gritar que queremos avanço?
Há que ganhar consciência: a crise não é só portuguesa. E, infelizmente, a crise por cá é pior em valores morais do que monetários...
A ver vamos no que isto dá, até porque, ao que parece, este país não é para portugueses. Ou então talvez seja, porque já é histórico que nos acomodamos depois das grandes conquistas e que só na iminência de as perdermos é que voltamos a tentar lutar por elas. Aos crentes, aconselho que entrelacem os dedos das mãos e rezem o mais que possam; aos ateus, que não deixem que o optimismo se desvaneça por entre esta bruma de más notícias; aos pessimistas, que ousem apenas ficar calados, porque de frases pintadas a desânimo já estamos todos mais do que cheios…
Hoje em dia parece que voltou a estar em voga o hábito da manifestação, mas o problema é que – tal como em quase tudo na minha geração (e nas que a ladeiam) – também ele se banalizou: quando por tudo e por nada escrevemos num cartaz que queremos um ministro na rua ou uma frase filosófica mas mais áspera que o necessário, perdemos a capacidade de nos fazer ouvir e de, com esse gesto, elevar alto e incisivamente a nossa vontade, o nosso direito, a nossa luta.
Já é tempo de fazermos mais por nós próprios.
E fazer mais não é (só) fazer mais do mesmo, é sim fazer mais e melhor, mais e mais perspicaz, mais e mais cívico, mais e mais inteligente… Se sei como se faz? Não, não sei. Mas sinto que sou mais um daqueles que acredita que isso seria o que faria a diferença…