"Sistema Renina-Angiotensina". Pois bem, foi este o mote que me fez atingir o auge do desespero hoje de manhãzinha numa das minhas aulas. Confesso que, inicialmente, até me estava a sentir um bocado mal por ter optado, mais uma vez, por apenas ouvir a professora falar sem tirar apontamentos. Mas depois olhei em volta e reparei que não estava completamente sozinho... Não é que não estivesse ninguém a escrever nada, porque estavam! Mas faziam-no com um esforço tão vincado que metia dó.
A cabeça da Sara tendia a cair para o meu ombro esquerdo. Os ouvidos da outra Sara já estavam quase apenas em busca da patacoada com mais piada. A Maria balanceava-se para a frente e para trás, com ou sem o suporte da mão no maxilar, sem vacilar, de forma a evitar uma visita anunciada do João Pestana. O Rui, de perna cruzada, ia coçando a cabeça na esperança de que das duas uma: ou a Oráculo se calava, ou o relógio decidia-se a dar uma volta completa em menos de um piscar de olhos (que, na manhã de hoje, demoravam quase dez minutos em todos nós, tal era o rejubilo da alma). O Henrique? De caderno aberto, sim. Mas já nem escrevia nada, não valia a pena. O João Mário trocara o riso inicial pela apatia, tentando não desfazer o seu ar de "Eu vou estar atento. Eu estou atento! Eu tenho que estar atento...". A Filipa e o Miguel, hoje quase nem os ouvi, porque eles sim estavam concentradinhos. (Haja alguém! :p)
Quanto a mim, meu amigos, bem tentava escrever alguma coisa decente (falo deste texto, claro), mas tendo a palavra "rim" a entrar-me periodicamente pelo ouvido dentro, confesso que não foi fácil. Ah! Mas o melhor... O melhor de tudo era que lá estás, ao fundo da sala, alguém teimava em dar-nos música. Numa sinfonia não muito bem ensaiada e, arriscaria eu dizia, pouco harmoniosa, eram sucessivos os pujantes assôos (confesso que tive que ir pesquisar como se escrevia isto) de nariz... Definitivamente, o melhor acompanhamento para uma aula em que a Filtração Glomerular do rim foi rainha e passada no seio do complexo cenário que vos descrevi atrás, só poderia ser mesmo este: alguém com as narinas provavelmente em limpeza mensal - sim, só podia, tamanha era a voluptuosidade sonora (e nem imagino quantitativa') de muco a sair rumo a um ou dois ou três ou vinte e sete pobres lenços de papel...
Posto tudo isto, eis que surge a derradeira das surpresas: "E depois...oh, e depois nada! Bom fim-de-semana.". Até aqui tudo normal, não fosse faltar UMA hora para o final da aula! :o Deus ouviu as preces de todos nós! *oiçam os cânticos aleluiáticos* Chegou ao nosso silêncio mais recôndito e profundo, interpretou-o e enviou-nos a salvação...
Foram estrelas, foguetes, purpurinas.
E ninguém se atreveu a dizer "Mas professora, ainda falta uma hora de aulaaa...", porque isso seria criar um grupinho de 50 e alguns inimigos e os tempos estão de crise, não há como manter uma manada dessa envergadura.
E lá saímos... Como se os nossos rostos fossem uma sandes de surpresa barrada com alegria...
(Que raio de metáfora mais infeliz para terminar o texto! -.-')
P.S.: Este texto não é pura ficção. E qualquer coincidência de nomes ou factos é, efectivamente, propositada! Não me responsabilizo pelas susceptibilidades feridas. Obrigado.
"Hey teacher, leave the kids alone!"
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Bem depois deste inspirador texto só me resta alegar (para minha defesa) que não sei se o teu ombro é bom para chorar ou não, mas pelo menos para dormir é! :p eu tentei não desiludir mas se fossem mais de duas pobres almas atentas naquela aula, o texto teria perdido toda a sua essência, para além de que, iria ficar muito mais pequeno dada a importante referência ao meu nome. Para post's futuros, só tenho uma coisa a salientar: juro e jurarei, que mais atenta estarei! loool
ResponderEliminarNão percam os próximos episódios desta novela que é o tédio da vida de um estudante do MIB.
Parabéns! Espero que faças isto regularmente para que todos nós, míseros leitores, possamos sentir que não somos as únicas almas perdidas e vagueadoras no tempo que é a nossa presente existência!
P.s.: Peço desculpa por esta última parte tão degradante, mas tal como o autor do texto também eu estou sob o efeito da aula desesperante desta manhã xD
Atenciosamente,
a Sara que inconscientemente deixava tombar a sua cabeça no teu ombro :D
Muito bom mais uma vez!
ResponderEliminarDeu para matar saudades das aulas sem ir.. Então o pormenorzinho dos assoôs foi como se estivesse na sala outra vez.. haha
Continua tim?
Bjinho*
Joana ( agr ja sabes xD )
Ahah, muito bom !! :)
ResponderEliminarcreio que na linha 26 há uma gafe: "confesso" e não "confisso". ;)
ResponderEliminarObrigado pela correcção :)
ResponderEliminarBrilhante descrição!! Qual Eça de Queiroz qual quê?!! Esta crónica só não te leva a Estocolmo por causa desta metáfora final que, convenhamos, borrou a escrita toda =P...além disso só sabes falar em sandes nas tuas crónicas xD ! A sério: está mesmo muito boa!
ResponderEliminarJoão Mário
Eu logo vi que haveria alguém que perceberia que o facto de ter falado em sandes neste texto era mesmo para fazer a ponte com o texto anterior *.*
ResponderEliminarJoão Mário pah, tou orgulhoso de ti rapaz! xD
Esta muito BOM o texto, tem imensa piada.
ResponderEliminarEssas aulas deve ser um espectaculo!